A Maldição Da Literatura: Sangue E Ódio Na Escrita Ficcional

Tenho um personagem que costumava repetir a seguinte frase: “A literatura é uma maldição!”. Ele, também escritor, chegou a conclusão que a memória e as obsessões que a escrita motivam são elementos que, às vezes, podem se voltar contra o criador. Tentarei explicar isso nesta e nas próximas crônicas que publicarei aqui no site Papo de Autor, para o qual passarei a colaborar com o maior prazer, quinzenalmente, sempre às quartas-feiras.

Na verdade uma questão que me interessa são as confusões entre Autor e Narrador. Com isso quero dizer que uma coisa divertida para um escritor é criar pequenas armadilhas para pegar o leitor no contra-pé. Posso dizer que alguns dos meus leitores já caíram bonito em algumas das minhas armações literárias. E isso acaba se tornando algo previsível. Mas talvez seja uma parte recompensadora, quando a linguagem faz com que as pessoas saem da normalidade. Elas acabam se revelando.

No meu romance, “Mocinho, Adeus”, por exemplo, ao usar eventos reais e pessoas conhecidas por mim como matéria prima para a estrutura narrativa, certas pessoas acabaram me atacando, dizendo que eu as estava ofendendo. A confusão é quase sempre algo que se repete. A pessoa retratada acaba se sentindo exposta às críticas severas de um narrador inescrupuloso. Como se fosse realmente “Ela” no livro.

 

Ninguém reclama quando escrevemos versinhos fofos para homenageá-las.

 

Tampouco, elas percebem que tudo aquilo é um delírio, uma representação. A saturação da linguagem em meio a eventos reais.

 

Fosse a história de um conto de fadas na doçura idílica das relações “saudáveis” qual graça teria? Será que literatura é apenas uma arte de puxar-o-saco dos amigos e familiares?

 

A maldição começa para o Autor quando os mal-entendidos saem do controle e se voltam contra o próprio. Já provei desse veneno, mas, como diz a sabedoria popular, isso são “ossos do ofício”.

 

A menos que o teu objetivo se resuma a escrever livros de auto-ajuda ou coisas do gênero, a literatura precisa sim de boas doses de sangue e ódio. E pitadas de ambiguidade para suscitar novas linhas de desejo.

 

Talvez esse seja o sacrifício que muitos escritores assumem quando decidem ir fundo nas próprias contradições e obsessões. Sem ele, parece que não há saída digna para iniciar um novo livro nas primeiras sentenças e armadilhas arquitetadas.

 

O que eu quero dizer é exatamente isso: não tenha medo, arrisque tudo, não perdoe ninguém! Não seja covarde!

 

Ao aceitarmos o desafio de fazer ficção ao escrever um romance, de saída você tem que ter clareza quanto a um ponto, do qual não podemos abrir mão: “doa a quem doer, vou levar isso até as últimas consequências”. Mas isso não é tarefa para qualquer um.

O preço a ser pago, você já sabe. E ninguém poderá te dar nenhuma garantia se valerá mesmo a pena pagar por ele.

 

Autor(a): Gilbert Daniel Silva

Escritor, professor e pesquisador, publicou em 2016 o livro de contos "Amanhã, À Noite, Chegaremos Lá" (Editora Ler Para Escrever) e o romance "Mocinho, Adeus" (Clube de Autores, 2018), além de outros livros de não-ficção. Escreve no site Papo de Autores quinzenalmente, sempre às quartas-feiras.

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