Criação de Mundos #1

Então, por onde começar quando criar um mundo? Acredito que quase todo autor de fantasia ou mestre de RPG já se fez essa pergunta algum dia. Quem sabe até Deus (ou Deuses) já estiveram nessa situação. O processo de criação não é fácil, muito menos linear e contínuo, mas existem alguns pontos que devem ser observados que podem ser encarados como dicas. No fim das contas, como tudo fora do campo das exatas, não existe uma resposta certa para a grande pergunta. São vários os caminhos que nos levam ao mesmo objetivo; e como na vida, o importante é tentar apreciar a viagem, quem sabe até mais que o destino final.

Criação de cima para baixo

 

De cima para baixo ou de baixo para cima?

Depois dessa enrolação filosóficas, vamos às dicas. De modo geral, existem duas abordagens mais utilizadas para a criação de um mundo fictício: de cima para baixa, ou de baixo para cima. A diferença entre os dois é brutal. No primeiro caso, o importante é definir muito bem uma cidade ou nação, levando em conta detalhes como rumores locais, personagens importantes, os costumes, a religião, o clima, a geografia, em suma, praticamente tudo que faz desse pedaço de chão um lugar que merece ser o cenário de uma história.

Criar um mundo de cima para baixo é um processo mais amplo. Precisamos pensar mais em temas para descrever grandes regiões de um mapa. Precisamos definir coisas como uma cosmologia, uma mitologia, incluindo como aquele mundo nasceu e evoluiu até o ponto onde está agora. Quais os principais conflitos políticos e ideológicos que fazem as engrenagens do mundo girar.

Como já comentei, não existe um caminho que seja mais fácil ou mais certo; no fim das contas precisamos viajar um pouco pelas duas estradas, mas nunca até o fim. E o quanto devemos nos aventurar em uma ou outra é toda uma nova questão. Certa vez tive o privilégio de ouvir um dos grandes nomes da ficção histórica da atualidade, Bernard Cornwell, responder a um questionamento sobre o quanto ele pesquisava para escrever um livro. A resposta foi tão simples que até o urso Baloo do Livro da Selva já conhecia: somente o necessário. Os livros de Bernard Cornwell são famosos pela ambientação impecável, mas isso não quer dizer que ele está escrevendo uma dissertação de mestrado em história. O importante em um livro é o enredo, os personagens; a pesquisa vem apenas para agregar. E o mesmo pode ser dito sobre a criação do mundo.

Antes de se preocupar com os deuses de seu novo mundo, com as raças, as línguas, o calendário revolucionário, os pontos turísticos da cidade subaquática, ou com a organização social daquela tribo de homens-formiga da selva que não existe em mais nenhum outro lugar, pense no enredo e nos personagens que farão parte dele. Nem o mais criativo e rico mundo de fantasia salva uma história ruim e mal escrita.

Criação de baixo para cima

 

Foco!!

Escrever é uma atividade muito trabalhosa, então foque seus esforços no que realmente importa, construa apenas o necessário de seu mundo, apenas o que irá agregar a história. Se aquele reino do deserto inspirado no antigo Império Otomano sequer será citado no livro, por favor, não se preocupe com ele nesse momento. Criar um calendário realmente é algo relevante para a sua história, ou é apenas uma curiosidade?

Assim como Roma não foi construída em um dia, seu mundo também não precisa. Seu mundo pode e deve crescer com o tempo, sob demanda, conforme um ou outro elemento se tornar necessário para a história. O dia que seu grupo de aventureiros for visitar o tal reino do deserto, apenas então pesquise sobre o estilo de vida e os costumes do povo no Império Otomano. Até lá, lembre-se da música do urso Baloo e cante: necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais.

Autor(a): Danilo Sarcinelli

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