Criação de Mundos #2

Fala galera do Papo de Autor! Estamos de volta para o segundo post da série sobre Criação de Mundos. Como já comentei no artigo anterior, algumas importantes perguntas devem ser respondidas quando nos propomos a criar um mundo novo de fantasia, seja de cima para baixo ou de baixo para cima. Qual será o conceito geral do mundo? O nível de tecnologia? Como funciona a magia? Quais as religiões? Como as sociedades se organizam em termos políticos? Quais as raças que compõem esse mundo?

São tantas perguntas que possivelmente eu devo ter esquecido alguma. A grosso modo, completar esse questionário com o maior número de informações possível é o mesmo que criar um mundo novo. O grande cuidado que devemos ter agora é torná-lo único e especial. Um mundo de alta fantasia, com deuses ativos e todas as raças padrões de um cenário de RPG vai parecer uma cópia de Forgottem Realms. Se é isso que deseja, então vai fundo… caso contrário, vamos às perguntas!

Criação de mundos

 

Conceito geral

O conceito geral é uma espécie de tema central. Forgottem Realms, por exemplo, é um mundo repleto de deuses, personagens muito poderosos, e raças que se odeiam, prontas para criar confusão. Dragonlance pode ser definido pela luta entre dragões bons e maus O mundo de Crônicas do Gelo e do Fogo, por trás de todas as intrigas e violência explícita, também é uma batalha entre o bem e o mal, entre o fogo e o gelo.

No meu livro, Passagem para a Escuridão, o tema central também é a batalha entre o bem e o mal. Há centenas de anos, os demônios do Submundo invadiram o mundo dos humanos e após uma grande guerra foram derrotados e expulsos. Os demônios, porém, tem planos para voltar e concluir o que tinham em mente. Esse é o pano de fundo do livro, mas como veremos mais a frente, esticar o pano na parede é apenas o primeiro passo para se criar um mundo interessante que servirá de palco para as histórias que lá serão contadas. E mais uma vez vou lembra-los: um mundo incrível não salva uma história ruim. Foco na história!

Tendo isso dito, é fácil ver que os mundos de fantasia que mais se destacam têm um estilo diferente. Eles alteram significativamente a experiência de leitura do núcleo de fantasia de alguma maneira para diferenciar-se da mesmice. Alguns têm foco no clima, no nível de tecnologia, no sistema de magia, na cosmologia, etc. Sem essas diferenças interessantes e marcantes, adicionar algumas preferências idiossincráticas fará de seu novo mundo, apenas mais um entre tantos, apenas esquecível.

Dragonlance: dragões bons e maus se enfrentam

 

Nível de tecnologia

Definir o nível de tecnologia é uma das minhas partes preferidas. Simplesmente pois envolve muita pesquisa histórica. Quando pensamos em fantasia logo o que vem a nossa mente são os cavaleiros e castelos da idade média. Isso e dragões, mas essa é outra conversa. A questão é que por diversas razões a idade média europeia está muito ligada ao gênero de fantasia. A alta idade média, por sinal, para ser mais preciso. Ou seja, deixar os castelos de pedra e cavaleiros de armadura de placas pode ser uma boa ideia para do lugar comum.

A história da humanidade é tão rica que impressiona ser tão mal explorada pelos autores de fantasia. Temos toda a antiguidade, com a civilização grega, egípcia, persa e tantas outras. Temos centenas de anos do império romano. Temos toda uma África ainda a ser descoberta (vide o que foi feito no filme Pantera Negra). Toda cultura oriental é um mar de referências fantásticas no qual os mangás e animes nadam de braçada. E ainda temos as civilizações pré-colombianas como os astecas e maias.

Em suma, nosso mundo é muito grande e variado para ter apenas a alta idade média europeia como fonte de inspiração para os livros de fantasia. Sem dúvida, sair do lugar comum, nesse caso, vai implicar em muita pesquisa para seu livro não soar somente alegórico e preconceituoso. Mas, conforme já comentei, pesquise apenas o suficiente para evitar os anacronismos e dar mais cor a sua história; os leitores não querem uma tese de doutorado.

Outro assunto importante quando estamos falando de nível de tecnologia é o sistema de magia. Poucas pessoas fazem a conexão, mas a verdade é que o acesso fácil a magia torna menor a pressão para o desenvolvimento de novas tecnologias. Isso pode ser visto facilmente na série do Harry Potter. O mundo dos bruxos na Inglaterra parece ter parado no tempo. Ninguém precisa de uma máquina de lavar louça quando com um gesto da varinha pode mandar pratos e talheres se limparem e voarem para as prateleiras.

Outra referência interessante é o anime A Lenda de Korra, que se passa anos após o seu predecessor, A Lenda de Ang. A maioria das pessoas no mundo do avatar não possuem o poder de dobrar os elementos e precisam de virar com tecnologia. E conforme essa se torna mais difundida, os tais dobradores começam a ser vistos com desconfiança e antipatia, até serem caçados por grupos extremistas que viam neles o retrato de uma era em que não ter poderes significava ser oprimido.

A tecnologia e a magia não são necessariamente opostas. As duas podem ser integradas de modo a permitir que todas as pessoas possam desfrutar de suas facilidades. Máquinas e equipamentos movidos a magia podem inclusive acelerar o desenvolvimento tecnológico de seu mundo. Ao invés de velas, as casas podiam ser iluminadas por globos de luz, trens flutuantes podiam servir como transporte público, e por aí vai. Pense nisso.

A Lenda de Korra

Autor(a): Danilo Sarcinelli

Compartilhe: