Porque o mundo é um lugar melhor quando as palavras significam mais de uma coisa

Na época em que fiz a faculdade de design, lá no final dos anos 2000, tive aulas de semiótica com uma senhora inteligente, muito gente boa e meio maluca. Essas aulas foram um dos pontos altos da minha graduação e essa professora é daquelas que vou levar no coração pelo resto da vida. Quando ainda estava explicando o que diabos era a tal da semiótica, fez uma dinâmica rápida onde perguntou para cada aluno qual era a primeira coisa que vinha à mente quando ouvia a palavra “manga”. Em meio à “fruta”, “amarelo”, “espada”, “rosa”, “manga de camiseta” ou, no meu caso, a palavra “manga” escrita, ficou fácil entender o que ela queria passar.

A interpretação de um signo, no caso a palavra “manga”, depende da bagagem e da percepção individual de cada um. Desta forma, no curso de design se falava muito de frutas enquanto, de acordo com ela, no curso de moda se falava muito sobre cortes de blusas. Eu sou alguém fascinado por palavras e pela comunicação e talvez ela tenha ganhado meu coração nessa aula.

Essa paixão pela palavra e o seu uso na comunicação foi o que tornou 1984, que eu inclusive já resenhei, o meu livro preferido. Na distopia de Orwell, uma das várias ferramentas utilizadas para manter a população sob controle era a manipulação das palavras. O governo fazia um grande esforço para que o vocabulário das pessoas fosse o mais restrito possível e isso envolvia apagar, por meio da edição de materiais textuais novos ou antigos, os vários significados que uma mesma palavra tinha.

“Manga” para o Partido significaria exclusivamente ou a fruta, ou a parte da roupa (considerando a falta de comida, provavelmente o segundo). Pouco a pouco, eliminavam também sinônimos e, eventualmente, até os antônimos, já que se uma coisa é só oposição à outra, você não precisa das duas palavras. Assim, havia poucas palavras e cada uma teria apenas um significado.

E por que isso era usado como ferramenta de dominação? Porque quanto mais restrito é o seu vocabulário, mais difícil é se expressar. E quanto mais difícil é se expressar, mais difícil é organizar raciocínios complexos. Até os sinônimos colaboram com isso, porque, por mais parecidos que sejam os significados de duas palavras, elas ainda vão ser entendidas de formas ligeiramente diferentes.

Em um exemplo meio bobo: “luz” e “brilho” são considerados sinônimos no dicionário, mas eu nunca vi — e se alguém viu pode puxar minha orelha — quem utilizasse as duas exatamente nos mesmos contextos. E apenas isso não basta, já que tem horas que nem todo o dicionário dá conta de expressar o que é preciso. É aí que o escritor competente vai lançar mão de figuras de linguagem ou até dos neologismos. As palavras são a ferramenta de trabalho de quem lida com texto, não no sentido de se fazer uma disputa louca de quem arranja o termo mais obscuro, mas no sentido de que cada variação de um mesmo significado adiciona textura, contexto e sentimento no que está sendo escrito.

Em uma época como a atual, em que há bem mais gritaria do que certezas, deixar as palavras correrem soltas é importante, porque elas alicerçam nossa comunicação. Por isso, mais importante do que enriquecer o texto, entender que os significados e leituras sempre serão variados nos ajuda a entender um ao outro. Não por acaso, não é raro de tempos em tempos borbulhar na internet uma reação exagerada a partir de uma fala que, ao ser olhada com atenção, simplesmente gerou confusão por uma parte dizer uma coisa e a outra entender outra. Ruído na comunicação é natural e não raro resolvível com um pouco de paciência e bom humor.

Em outras vezes, fica evidente que a interpretação desfavorável foi escolhida deliberadamente e é essa interpretação que vai ser transformada em títulos click-bait e memes maldosos. Só dá para saber o que uma palavra significa para quem a proferiu ao se enxergar o contexto, algo que geralmente está além de memes e títulos. Há a criação de um fake news real, porque aquilo realmente foi dito, então não é tecnicamente mentira, certo?

Essa foi a grande lição que tirei do meu livro preferido: sempre desconfiar de quem tenta, como no Partido do Grande Irmão, eliminar significados, empobrecer debates ou simplesmente furtar palavras do que pretendiam representar. Na melhor das hipóteses, você está lidando com burrice, que, dada a riqueza de significados obtidos na linguagem popular, nada tem a ver com quantidade de estudo. No entanto, eu sempre tendo a apostar na má-intenção.

 

Autor(a): Vinicius Mendes

Redator publicitário metido a crítico. Em processo de gestação do primeiro livro.

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