Please Like Me (Resenha)

Eu gosto muito de começar minhas resenhas com um parágrafo resumindo o conceito da obra da semana. Faço isso tanto para já adiantar ao leitor do que a história se trata, quanto por questões completamente pragmáticas: O template do WordPress coloca um trecho do começo do texto logo abaixo do título. É difícil trabalhar com essa estrutura em Please Like Me (2013-2016), uma série australiana de comédia dramática que comecei a assistir acidentalmente no Netflix e se tornou uma das minhas preferidas.

A proposta é acompanhar a vida de Josh (Josh Thomas, também criador e roteirista da série) em sua vida deveras comum. Na primeira temporada, conhecemos o rapaz ao levar um fora da namorada de adolescência, Claire (Caitilin Stasey), alegando que ele seria gay. Josh acaba transando tentando transar com um rapaz, colega de trabalho de seu melhor amigo Tom (Thomas Ward, também roteirista) nesse mesmo dia, e passa a questionar sua sexualidade e como sair do armário para seu pai em crise de meia idade Alan (David Roberts), sua madrasta ácida Niamh (Nikita Leigh-Pritchard) e sua mãe bipolar com tendências suicidas Rose (Debra Lawrence), ao redor de quem boa parte da narrativa gira ao redor.  E esse é apenas o conflito do primeiro episódio.

E é daí que me vem a dificuldade em se resumir Please Like Me: a vida de Josh é bastante banal, e a série é episódica, cada uma das quatro temporadas lidando com um período diferente da vida do rapaz, sua família e amigos.

E por que uma série que lida com banalidades é tão legal?

Josh Thomas é um comediante estabelecido na Australia, e o grande foco da narrativa é o humor, inclusive contando com participação de outros comediantes australianos, como Hannah Gadsby, estourada globalmente com o especial da Netflix “Nanette”, que ganha uma personagem fixa a partir da segunda temporada.

Mas a fonte do humor aqui não é a sátira, as convenções de Sitcom ou o pastelão, e sim aqueles momentos engraçados do cotidiano. As pessoas tem diálogos propositalmente engraçados simplesmente por serem pessoas engraçadas, como aconteceria em uma roda de amigos da vida real, lidam com humor para amenizar as dificuldades da vida, e até uma briga estúpida pode ser engraçada para quem vê de fora.

E isso é magistralmente construído com um texto afiado e realmente realista. Muitas vezes eu lembrei de conversas engraçadas que  tive com amigos próximos ou familiares, e com uma direção minuciosa que, de acordo com o que li depois, repetia cenas críticas para garantir que cada ator reagiria da forma mais adequada ao seu personagem, e aí uma cena tensa em primeiro plano se torna engraçada quando você percebe como os personagens de fundo lidam com aquilo.

O elenco da série ainda manda muito bem, com destaque para a personagem de Rose, que consegue fazer rir sem ser desrespeitosa com a montanha-russa emocional que são seus transtornos psiquiátricos e impulsos de acabar com a própria vida. Josh Thomas consegue ser babaca, egoísta, mimado, inseguro, irritante e ainda assim faz você gostar dele. É normal que pessoas tenham defeitos, é aquilo que nos iguala como humanos, e Josh é certamente um poço deles.

Os problemas de Rose, por sinal, aparecem frequentemente na narrativa. As coisas não se tornam mais leves por serem tratadas com humor e a série lida com diversos temas pesados, como aborto, toda sorte de doença psiquiátrica catalogada, conflitos familiares, preconceito variados, luto, etc. E exatamente por não fugir de nenhum dos assuntos que lida, consegue te fazer gargalhar, chorar logo em seguida e gargalhar novamente a partir daquela mesma coisa que te fez chorar alguns minutos atrás, mostrando que é possível fazer humor ácido com assuntos difíceis sem perder noção da sensibilidade.

Dá para gostar?

Please Like Me é uma das minhas séries preferidas de toda a vida, então sou suspeito para falar. Para alguém de gosta de construção e estudos de personagens como eu, é uma série que todo mundo deveria dar uma chance em algum momento. Além disso, é acessível pela Netflix e curtinha, tendo um total de 32 episódios de mais ou menos 30 minutos cada. Se você quer uma dose de realismo  que te permita dar risada, talvez essa também seja uma série para você.

 

 

Autor(a): Vinicius Mendes

Redator publicitário metido a crítico. Em processo de gestação do primeiro livro.

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