Samantha! (Resenha)

Há muito, muito tempo atrás, em um período misterioso, caótico e confuso conhecido como Televisão Brasileira dos Anos 80, uma garotinha de 5 anos desponta como uma das maiores estrelas do país ao liderar um grupo infantil. Infelizmente, o tempo passa e não tem como ser uma estrela mirim aos 40 anos.

Samantha!, também resenhada pelo Douglas no Sem Frescura, é a nova produção brasileira do Netflix, uma comédia que, assim como Bingo – O Rei das Manhãs, narra uma versão fictícia e mal-disfarçada da  vida de uma celebridade da TV nacional dos anos 80. Emanuelle Araújo interpreta a personagem título, uma ex-celebridade infantil, líder do grupo Balão Mágico Turminha PlimPlom,  que nunca deixou de ser famosa em sua mente e está disposta fazer com que a realidade se adeque a isso. O elenco ainda conta com Douglas Silva, interprete de Acerola de Cidade dos Homens, como Dodói, o marido da protagonista, um rapper jogador de futebol recém-saído da cadeia.

A primeira coisa que me atraiu na série foi a sensação de semelhança com Bingo, um filme que pessoalmente gosto muito, mas os primeiros minutos já deixam claro que o foco da série é completamente diferente. Se em Bingo tínhamos um drama que era por vezes engraçado por contar a vida de uma pessoa engraçada, aqui temos uma comédia tradicional.

Samantha! tira sarro com gosto das (sub)celebridades brasileiras, uma verdadeira metralhadora de referências da cultura pop local. Vai de participações especiais à citações nominais, incluindo ainda algumas piadas visuais fáceis de serem captadas por quem já se entregou em algum momento ao honroso passatempo de ficar a par de fofocas da vida de gente famosa. Tem um flashback que envolve uma perna mecânica, por exemplo, que faz rir tanto pela sacada quanto pela simples cara-de-pau da série em fazer troça daquela situação. Todos os episódios assistidos, ainda vale a pena discutir com amigos e checar se você pegou quem era aquele cantor muito mais velho do que parece e viciado em casamentos, ou aquela estrela mirim dissimulada de nome cafona.

Mas o grande trunfo da série é o elenco afiado, principalmente Emanuele e Douglas, que nos fazem rir e nos apaixonar por personagens que seriam muito fáceis de se odiar. Samantha é deslumbrada, politicamente incorreta, completamente desconectada da realidade e se sujeita a qualquer coisa por um holofote. Dodói é um encostado tentando recuperar sua esposa e aprendendo na marra, enquanto erra bem mais que acerta, o que é ser pai.

Seus filhos são dois jovens precoces que não conseguem fazer amizade com crianças da mesma idade. Cindy (Sabrina Nonata) por estar com a cabeça em alguma tentativa de mudar o mundo pela justiça social, Brandon (Cauã Gonçalves) por ser basicamente uma versão mais simpática de sua mãe. Temos ainda Daniel Furlan no papel de Marcinho, o obrigatório empresário inescrupuloso que ao mesmo tempo tenta convencer Samantha a sacrificar o restinho de dignidade que lhe resta, chutá-la quando acha que ela só trata prejuízo e se humilhar de volta cada vez que ela ganha qualquer parca atenção midiática.

Uma série rica em referências, com um humor ágil e um programa excelente pra quem quer simplesmente se entreter, um alívio em meio a produção nacional do Netflix que tem um foco grande em temas mais pesados. Se você gosta da trasheira da vida dos famosos, de programação vespertina da TV aberta e dos anos 80, é imperdível. Ainda mais agora que foi renovada pra sua segunda temporada, provando que mais do que um sol, Samantha! é uma estrela.

 

E pra quem não consegue tirar a trilha sonora da cabeça, como eu, as músicas da Turminha PlimPlom estão disponíveis no Spotfy!

 

 

Autor(a): Vinicius Mendes

Redator publicitário metido a crítico. Em processo de gestação do primeiro livro.

Compartilhe: